segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Por que


Estar doente da alma é como estar doente dos olhos. Não vemos as cores, não sentimos os aromas, os sabores. Passamos a não enxergar mais o mundo tal como ele é. Aliás, nos indagamos: como o mundo é? Tudo deixa de fazer sentido. A vida, em si mesma, ganha uma vacuidade e torna-se assim, um nada abissal, profundo. Nada, nem ninguém nos motiva. Muito menos nós mesmos. Olhamo-nos no espelho querendo arrancá-lo longe e para sempre repetindo baixinho: por que, por que, por que. Não tem a ver com ser feio ou bonito, longe disso. Tem a ver com ser. A investigação é mais profunda e passa no âmago do que é o ser humano, em sua raíz, suas origens. Para que, por que. Por que, por que, por que.
Nesses dias meu melhor amigo é um menino cabisbaixo que senta na primeira carteira da sala, desenha corações e casas com árvores e borboletas durante as aulas e nos intervalos, se arrisca a pedir um croissant de queijo na cantina para comer sozinho nos bancos da quadra, observando de longe os seus colegas de sala jogarem bola com destreza. Depois que termina de comer ele se projeta para dentro da quadra e sabe que era ali que queria estar, desde o começo. Por que, por que, por que, o meu amigo se pergunta.
Projeto-me de fora para dentro da vida tentando encontrar seus caminhos. Em seus meandros, não ecoam respostas, nem sequer ao longe. E tal como o menino me escondo por detras de um croissant de queijo enquanto a vida acontece mesmo num jogo de futebol. Por que, por que, por que.

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