Solidão de quem fica
Alegria de quem parte
O outro leva consigo
Morada construída
Obra de arte
O que fica sente ruína
Labaredas
Labirintos
Morte
Monstros
Destroços ferozes
A corroer-lhe as entranhas
Sensações estranhas
Lembranças
do que outrora fora
o que hoje
já não é mais
impossibilitado
vagueia na nave do sonho
e nesta vê brotarem as orquídeas
pensa:
-já é primavera
-quimera
-vagueio no sonho, outono
-durmo, apenas
Quem é?
Não sabe dizer
Não se reconhece no seu corpo
Porque dizem não ser quem é, de verdade
E então não se sente parte
Em parte, da totalidade
Mas sim exclusão
Com razão
Da multidão
Mira-se no espelho
E vê-se todo aflição
Medo absoluto
Da solidão
O maior desejo é o de gritar
Mas não consegue
O sangue a pulsar
A memória a latejar
O outro a ir-se
Que se vá
É o que sente
É o que pensa
Este um tão inho
Este um tão pequenininho
Este ser miúdo habita as profundezas de minha alma
E comigo passeia por todas as noites
Por todos os dias
Este um tão inho é quem simplesmente é
por não ser ninguém definido
Um amigo
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