Quem chega à cidade sem lentes não vê nada senão uma escuridão pérfida que a tudo e a todos engana sem saber, nem porque, nem de onde. É uma maldade assim, barata, que reina na cidade e quando lá cheguei logo obedeci à placa que dizia: sem lentes, nem ouse. Não que tenha me esquivado da maldade, ao contrário, fui por ela contaminado até a alma, mas sobrevivi.
Lá por dentro da cidade, de quando em quando se depara com os cadáveres dos desavisados, que, sonâmbulos, esqueceram-se até de viver e assim, deixaram de.
Nem precisa se dizer que a escuridão é o que predomina em Mundaréu. Uma escuridão obsoleta, que já deixou de ser mas ainda é. Permanece, por obra do Diabo.
A composição da cidade é simples, embora seu interior seja complexo. Complexo porque diverso. O que se vê em Mundaréu são vagões prateados que correm a velocidade do vento e pessoas, muitas pessoas. Pessoa em gênero, número e grau. São tantas e de tantas formas que em Mundaréu é impossível traçar a característica peculiar de seus habitantes.
Nesta cidade o que mais se busca é um lugar para se sentar. Da janela vê-se um muro que dá para lugar nenhum, mas mesmo assim a janela é o assento mais cobiçado. Todo o tipo de gente se mistura em busca de um lugar para sentar, e, em meio aos cadáveres dos desavisados vão tropeçando em alguns que se auto denominam vendedores ambulantes. Vendem não sei o que para não sei quem porque nunca vi ninguém se aproximar destes sujeitos. Têm outros que nada vendem, apenas pedem um não sei o que e nunca recebem, ao contrário, estes afugentam os habitantes da cidade como diabo diante da cruz.
É comum que os habitantes de Mundaréu se cansem de buscar um lugar para se sentar e então, fatigados, eis que deixam as lentes de lado e se somam aos desavisados. O difícil é distinguir, nessa cidade, quem é quem, infeliz ou afortunado porque não há uma só expressão a não ser incessante busca por um lugar. Perto da janela.

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