sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Puritana

Quem chega tudo ve porque tudo eh assim, escancarado. Em Puritana os olhos estao bem abertos e os pecados, ocultos. Nao existem santos em Puritana, soh pecadores. Misteriosos pecadores que andam de um lado ao outro buscando um caminho para ser menos, menos pecado. Apesar disso nao ha crimes nem atrocidades. Todos convivem em uma harmonia de nao se saber ser, ja sendo. Nao se reconhecem mas sao. E convivem.
Debaixo da terra, por entre suas poeiras submissas todos em Puritana submetem-se aos seus olhares. Olham-se, miram-se e reconhecem-se. Sao da mesma natureza e deslumbram-se com a mesma beleza, choram pelas mesmas tristezas e abalam-se com as mesmas dores.
Ha em Puritana significacao especial que nao vi em cidade alguma. Seus habitantes percorrem distancias em busca de distancias ainda maiores, acreditando nisso nao haver pecado algum. O que nao veem, os habitantes de Puritana, eh que seus corpos misturam-se ao corpo daquele gigante que os transporta e suas vidas, maquinizadas, estao desprovidas de sentido e ocas.
Apagados e inertes para com a vida, os habitantes de Puritana sentam-se e permanecem, olhando-se. A comunhao eh coletiva e todos rezam internamente juntos para o sagrado sentido do existir, mesmo nao existindo, de verdade. Comungam de uma vida que nao eh deles, mas de outrem, daquele Outro que os transporta.
Talvez seja este o destino de Puritana, fazer crer aos seus habitantes que todos sao santos, e talvez o sejam, em sua pureza e inocencia. Talvez nao, em sua mediocridade de nao verem-se essencialmente humanos. 

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