De início a Rosa não falava nada, absolutamente nada. E seu silêncio me abalava. Era como se entre nós houvesse um muro. E de fato havia. Era ela quem o colocava e eu, materializava aquele muro, de raiva. Já que não vou ter o que quero, vou me proteger de você porque você é mal e me faz sofrer. Mas mesmo com todo o desconforto que passei com o silêncio da Rosa, jamais deixei de gostar dela, nem por um instante. Há algo de misterioso que me inspira a admirá-la. Algo de muito misterioso mesmo... Algum poder no ar... Algum perfume exalado em noites secretas e estreladas. Um segredo que só a lua vê, e compreende. Quisera eu ser a lua, nesses instantes. Mas nada mais sou que eu mesma. Alguém que rega e conversa com uma Rosa. Bonita Rosa. Eis que chegou o dia em que, depois de tanto regar e conversar com a Rosa, ela finalmente abriu uma pétalazinha. Uma única pétalazinha. Pequena pétalazinha. Sim, abriu. E escutá-la falar da tonalidade de sua pétala, da vivacidade de seu mundo, da pureza e beleza de seus sentimentos, foi uma das mais belas e esplendorosas experiências que já vivi... Foi como ler a mais bela das poesias, ou escutar a mais belas das músicas de piano, foi como dormir horas a fio, sonhando sonhos bons, foi como assistir filmes de amor com o ser amado em dias de frio, debaixo das cobertas. Foi transcendental. E a pétala que a Rosa abriu exalou tanto perfume que fiquei embriagada e no dia seguinte, estava de ressaca. Ressaca emocional. Era como se um turbilhão de emoções tivesse atravessado todo o meu ser, dos pés a cabeça, mexendo com todas as minhas estruturas. Aturdida sonhei que eu já não era mais eu e então quem regaria a Rosa? Acordei aflita, a procura de um jardineiro. Quando então me dei conta de que não é o ato em si de regar que importa, mas sim a relação estabelecida enquanto se rega. Desisti do jardineiro, e, bem acordada, dei por mim que ainda estou aqui e que ainda há tempo para se regar a Rosa.

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